Em 2011, publiquei um texto chamado “O Empreendedor Porquinho” no blog Mente Empreendedora”. Inclusive, usei o mesmo nome para minha newsletter no Substack. Usei a história dos três porquinhos para falar sobre comportamentos que encontrava nos personagens e correlacionar como a mentalidade empreendedora.
A publicação recebeu dois comentários que, até hoje, me dão alegria todas as vezes que leio. Uma leitora comentou que aquele texto poderia ser trabalhado em sala de aula. Outro leitor contou que havia usado parte do texto na abertura de uma matéria sobre possíveis acontecimentos na Ucrânia, dando os créditos ao blog.

Quinze anos depois, decidi revisitar o que escrevi.
Quem não conhece a história dos três porquinhos? Cícero constrói uma casa de palha, Heitor uma casa de madeira e Prático uma casa de tijolos. Então o lobo aparece e coloca cada construção à prova.
Nos três personagens, vejo atitudes que também aparecem na maneira como as pessoas conduzem seus projetos, suas vidas e enfrentam problemas. Um se coloca como vítima das circunstâncias. Outro cumpre o manual, mas trava quando precisa sair dele. O terceiro assume a responsabilidade de construir algo que funcione.
Cícero: começa, abandona e encontra um culpado
Cícero representa aquela pessoa que está sempre começando alguma coisa, mas raramente termina.
Tem uma ideia de negócio, compra um curso, inicia um projeto. Nos primeiros dias, fala sobre aquilo com entusiasmo. Quando chega a parte que exige disciplina, repetição e esforço, perde o interesse.
Logo surge outra ideia, aparentemente melhor que a anterior.
O problema é que ele repete o mesmo comportamento. Troca de projeto sem corrigir a própria maneira de trabalhar. Acumula começos e continua esperando um resultado diferente.
Quando fracassa, encontra uma explicação que sempre aponta para fora: O mercado não ajudou, as pessoas não reconheceram seu talento, faltaram contatos, o cliente não entendeu, etc.
Ele vive uma vida do “se”.
Se tivesse mais dinheiro. Se conhecesse as pessoas certas. Se tivesse começado antes. Se alguém desse uma oportunidade…
Enquanto isso, deixa de fazer o que já poderia fazer com os recursos que tem.
Esse comportamento também aparece em quem já empreende. O dono reclama que ninguém executa como ele gostaria, mas não orienta a equipe. Diz que os clientes só querem preço, mas não melhora sua apresentação de vendas. Afirma que não tem tempo, mas continua adiando a organização do trabalho.
A justificativa pode até convencer quem escuta. Mas não resolve os problemas. É como colocar um balde embaixo da pingueira e reclamar, ao invés de consertar a pinguinera e acabar definitivamente com o problema
Cícero precisa desenvolver compromisso com o que começa e humildade para analisar a própria participação nos resultados que obtém. Sem isso, cada novo projeto corre o risco de virar mais uma história sobre o que poderia ter sido.
Heitor: faz o que foi pedido, segue o manual, mas trava se sair dele
Heitor é dedicado. Cumpre o combinado, segue as orientações e ajuda quando alguém precisa.
É uma pessoa com quem você pode contar, desde que tudo aconteça dentro do que foi previsto.
Sua limitação aparece quando o manual deixa de oferecer uma resposta (hoje em dia é o profissional que depende intelectualmente das inteligências artificiais).
Ele sabe executar o procedimento, mas tem dificuldade para avaliar se aquele procedimento ainda faz sentido (o que chamo de baixo repertório). Continua fazendo o que sempre fez, mesmo quando o resultado mostra que alguma coisa precisa mudar.
Imagine alguém responsável pelas vendas de uma empresa. Faz os contatos previstos, envia as propostas e registra tudo no sistema. No fim do mês, as vendas ficam abaixo do esperado.
Sua resposta é: “Mas eu fiz tudo o que me pediram.”
Fez. Só que o trabalho também exige entender por que as propostas não avançaram e o que pode ser corrigido na próxima tentativa.
É nesse sentido que, no texto original, chamei Heitor de eficiente, mas não eficaz. Ele executa a tarefa, porém não consegue conduzi-la ao resultado necessário quando precisa adaptar sua atuação.
Vejo esse perfil no chefe que cobra o cumprimento de uma rotina sem investigar se ela está funcionando (tive muita experiência com isso quando fui consultor de processos organizacionais). Ele sabe apontar o que não foi feito, mas não sabe orientar a equipe diante de um problema novo e nem provocar melhoria contínua.
Uma empresa precisa de processos, mas também precisa de pessoas capazes de pensar sobre eles.
Heitor precisa aprender a questionar uma orientação quando encontra uma falha, propor uma alternativa e assumir decisões que não estejam prontas no manual. Caso contrário, sua capacidade de contribuir fica limitada ao que alguém já pensou por ele.
Prático: assume a responsabilidade e constrói
Prático representa a postura empreendedora proativa.
Ele entende o que precisa ser feito e trabalha para entregar algo que cumpra sua função. Tem iniciativa, leva seus compromissos a sério e procura soluções quando encontra dificuldades.
Isso não significa que acerta sempre. Significa que não fica esperando alguém resolver tudo por ele.
Se falta conhecimento, busca aprender. Se uma tentativa falha, investiga o motivo e já executa com novos ajustes. Se percebe um problema no processo, trabalha para corrigi-lo.
Na empresa, é a pessoa que percebe uma dificuldade recorrente e apresenta uma proposta para resolvê-la. Que recebe uma responsabilidade e acompanha o trabalho até a entrega. Que consegue agir mesmo quando não há uma instrução para cada etapa.
Por isso, esse tipo de profissional é valorizado. Ele ajuda o negócio a funcionar melhor e reduz a necessidade de alguém supervisionar cada movimento seu.
Prático também lidera pelo que faz. Sua dedicação aparece nos compromissos que cumpre, na maneira como enfrenta os problemas e no cuidado com o trabalho que entrega.
No texto de 2011, listei tantas qualidades que ele parecia um super-homem. Mas continuo defendendo a ideia que veio logo depois: Essas qualidades podem ser desenvolvidas.
Ter uma empresa não faz de alguém um Prático. É possível ser dono de um negócio e passar o dia procurando culpados ou esperando que outra pessoa diga o que fazer. Da mesma forma, um funcionário pode ter uma postura empreendedora sem nunca ter aberto um CNPJ.
